Pular para o conteúdo principal

Postagens

E AMANHÃ SEI QUE ESTAREI MUDO

               O budismo nos ensina que a razão da infelicidade humana são as ilusões e os apegos. As ilusões têm a ver com a falta de conhecimento do que constitui a verdadeira natureza da existência, por exemplo, quando ignoramos que a vida material constitui um ciclo que tende a desaparecer mais cedo ou mais tarde, assim como todos os demais fenômenos. O automóvel de luxo de hoje será sucata amanhã e o corpo duro de agora não passará de cinzas que alimentará os vermes dentro de alguns anos. Portanto, não devemos nos apegar a coisas e ideias, devemos aceitar o fluir permanente da vida, reaprender a cada dia, rever nossos conceitos à luz dos fatos.             Assim dito, até parece fácil, contudo o mundo em que vivemos nos educa exatamente no sentido contrário, qual seja, o de adquirir, possuir, acumular, além de classificar, separar, escolher e excluir o que não está dentro de um de...

CRAZY HAPPY PEOPLE

Doutor, eu não me engano, O Bolsonaro é miliciano!!!             Se Carnaval não servisse para vilipendiar os déspotas e escrachar os babacas, o que sobraria? Um nariz de palhaço, um baby-doll transparente, uma fanfarra desafinada, algumas cenas circenses, músculos, pulos, glúteos e olhe lá. Felizmente, a massa descarada não está nem aí. Assume a festa de pleno direito e pulmões, quer se soltar, precisa dizer o não dito, extravasar o indizível, preencher o interstício que a festa momesca representa no ritmo da engrenagem moderna de moer carne humana e erigir no lugar um monumento de fúria e vento, desdém e consolo, tudo ao mesmo tempo, a chaga e a penicilina. Quando uma cidade se permite sair à rua e reocupar os espaços reservados às máquinas e ao movimento humano produtivo, dá-se uma verdadeira revolução. Os relógios tornam-se meros ornamentos, o lugar é este e não outro, o tempo é agora ou nunca. Viva a loucura, a l...

EXTREMA DIREITA, VOLVER!

            Então os brazucas resolveram ir passear na praça enquanto o lobo não vinha.   Nem sequer imaginavam que o lobo estava entre eles, disfarçado de cordeiro, a caráter em seu uniforme verde oliva, metralha, botas, palavrões e ameaças - ameaças aos montes, proferidas com a mão sobre a bíblia e o dedo sujo em riste. Este é o argumento por excelência da Klu Klux Klan, da TFP e dos tabaréus do MBL. Desde as cavernas, catacumbas e bunkers, Ave, César!, os que vão morrer, vos saúdam. Prometemos não cagar de medo quando os guardas-pastores enfiarem o dedo em nossos... narizes, prometemos não desfalecer.               Seria cômico se não fosse cínico esse jeito tupiniquim de escamotear as coisas e chamar jacaré de iguana e chacal de meu pet. Vamos ser mais claros: assumir o país tal qual ele é, com suas diferenças e injustiças, é difícil demais para uma mulher ...

PEDRO DANDÁ

Personagem e autor.               Já escrevi duas vezes sobre Pedro Dandá, a primeira no “Conto dos Homens Simples”, que aparece em meu livro Vento Sul, e a segunda na crônica “A Idade do Homem”, aqui neste blog. Consagrar-lhe um terceiro texto é prova de resiliência e longevidade, tanto de parte do personagem quanto do autor. No espelho virtual em que presente e passado se refletem, surgem imagens contrastantes, deslocamentos, a luz e a sombra se tocam na curva de um ângulo reto, tão diferentes e tão próximas.             Pedrinho teria tido uma certidão de nascimento, como todo mundo. No entanto, quando se decidiu que era tempo de aposentá-lo, foi preciso emitir um segundo registro, com uma idade aproximada. Como nem ele próprio sabe ao certo, perdura a especulação sobre sua verdadeira idade. Ele está acima de setenta anos, sem dúvida, talvez setenta e cinco, al...

SESSENTA ANOS

            Muita gente já passou por isso antes de mim, não tenho do que reclamar. Você conquista enfim a maioridade e pode gozar do privilégio do caixa especial e da mente tranquila. Aos 60 anos, você não precisa provar mais nada, a não ser que dá conta de subir aquela escada de 50 degraus ou tocar a ponta dos dedos dos pés sem ficar torto como um anzol. Nada que se compare ao vexame de ser barrado na entrada por suspeita de que ainda não completou a idade legal: te pedem um documento de identidade, tal qual o guarda rodoviário, conferem a data de nascimento, olham bem na sua cara para conferir se não é carteira falsa, fazem mentalmente as contas e concluem que você pode REALMENTE passar na frente dos demais. Um amigo me disse, não sem uma ponta de ironia, que a adolescência termina aos 60 anos. Estou propenso a discordar dele.             Ainda que alguns fatos da min...

LITTLE RED ROOSTER

                         O galinho de Quintino foi um famoso jogador de futebol e o Little Red Rooster, um blues de Sam Cooke regravado pelos Rolling Stones: “I got a little red rooster Too lazy do crow for day”, “Ganhei um o galinho vermelho Preguiçoso demais pra cantar para o dia nascer.”             Na fazenda, o canto do galo anuncia a aurora que desponta, no entanto, é pouco provável que ele desperte os demais bichos, além de algumas galinhas e humanos preguiçosos. Os galos mais disciplinados começam a cantar assim que percebem a claridade crescente. Depois que o sol nasce, vão cuidar de outros afazeres, como defender o galinheiro e se alimentar. Quando se aposentam desse ofício, geralmente viram canja.             A ironia fica por conta dos galos da ...

UM, DOIS, PANGARÉ MANCO!

             Emanuel Talvez entra na padaria:             - Duas salsichas para o meu cãozinho Molusco e um camembert   para minha ratinha Isabela.             A funcionária não gosta do que ouve:             - O senhor acha que eu tenho cara de quê?             Emanuel faz gracejos:             - De uma bela senhora. Muito prazer, sou Jesus Emanuel Talvez, vim a este mundo para desaborrecer.             - “D” o quê?             - Não é “D”, é “T” de “tatu”.             - O sen...

NOVES FORA 7 DE SETEMBRO

(Imagem: Vida de Turista)             Saí par ver o desfile de 7 de Setembro, afinal, o centro da cidade fica pertinho daqui e o som dos tambores chega a meus ouvidos como uma música de fundo à hora do café dominical. Trata-se de uma caminhada de cinco minutos, a rua está praticamente livre, não há multidões, poucos veículos, dá para ouvir passarinhos, gatos, cachorros e galinhas ao longo do caminho. O desfile é modesto e discreto, nem de longe lembra as paradas de antigamente, aquelas que os pais de vocês contam, ou seja, as pessoas da minha idade, e mostram nas antigas fotos em papel: a mamãe desfilando de bailarina, o papai tocando bumbo, o tio trajado de imigrante alemão ou japonês. A única animação evidente é a do narrador, colocando sobre o palanque onde se reúnem certamente o prefeito e mais meia dúzia de autoridades, além de um grupo de senhoras que participam do cortejo vestidas de fantasias a carnaval e dançando ao...

ÔNIBUS! BUU!

  (Imagem: pt.coolclips.com)             No Interior, não é fácil encontrar matéria para uma crônica, o que me leva a escrever sobre cães e galos e a inventar causos. Mas, na capital, não faltam motivos, bons ou ruins, dependendo do ponto de vista ou do humor do dia. É no meio das multidões de desvalidos que moem seus sonhos nesta imensa fábrica de injustiças que se sente o verdadeiro peso da vida. Vejamos os prosaicos ônibus, sobre os quais já escrevi mais de uma vez, essas caixas de metal, desconfortáveis de doer, que constituem a base do nosso transporte coletivo e dos quais nossas cidades grandes dependem como um ser vivo depende do oxigênio.               Convém lembrar que os coletivos são caminhões adaptados a partir do design dos carros de bois do velho oeste, com um cubo de aço, duas fileiras de assentos estreitos e duros de PVC de cada lado e tubos ...