Pular para o conteúdo principal

KEEP WALKING



            
         Então você descobre que aquele hábito antigo pode ser retomado depois de mais de vinte anos e que os joelhos, assim como as demais articulações, além dos músculos, coração e pulmão, enfraquecem-se muito mais com o sedentarismo do que com a marcha dolorida. A dor, afinal, tem também seu lado abstrato, depende da importância que se dá a ela. Se nascemos em um ato de dor e assim também encerramos nossas vidas, qual é o problema de senti-la durante o percurso?
            A bem da verdade, antes eu corria, agora eu caminho. Idade oblige, mas, com uma pitada de humor, essa mudança pode ser encarada como uma vantagem: foi caminhando e não correndo que o gênero humano fortaleceu-se e colonizou o planeta, das florestas tropicais aos polos gelados. Só muito tempo depois, tomado da nostalgia do seu lugar de origem, foi que ele começou a navegar. E possivelmente safou-se de muitas situações a nado, mas isso foi para curtíssimas distâncias. 
            E, depois, o filho cresce, fica do seu tamanho antes da hora, dá passos cada vez mais largos, ameaça te deixar para trás. Keep walking não é apenas a resposta ao apelo da vida, mas também um prazer e uma atividade criativa que todas as pessoas deveriam cultivar. Beethoven, como se sabe, andava murmurando música e Kant pensava andando. Tem também aquela linda canção de Luiz Gonzaga e Zé Dantas (Estrada do Canindé) que traduz fielmente a poesia da caminhada: “Ai, ai, que bom / que bom, que bom que é / uma estrada e a luz branca / no sertão de Canindé.”
            Do perfume das flores ao gases dos escapamentos, nada escapa a quem anda. O prosaico food truck do Pão do Bred, que cada dia está em um ponto diferente da cidade. As calçadas quebradas, os buracos nas ruas, os cães e suas matilhas, a dama da noite e sua essência sensual, as vozes familiares por trás dos muros e janelas, luzes que se acendem e se apagam, a pressa dos automóveis. Não tem preço ouvir de passagem o ensaio da Corporação Musical Santa Cecília (lê-se na placa) e levar de ouvido os acordes de trompas e clarinetes. Ver a fumaça alaranjada da chaminé da usina de longe, depois alcançá-la e em seguida deixá-la para trás, levando na memória o odor acre dos ácidos da aciaria. Há bares com mesas na calçada, namorados na penumbra, música ao vivo e in vitro, amigos reunidos em torno de uma garrafa de cerveja, as histórias que o filho conta (e às quais você empresta um ouvido plácido, viaja ao tempo em que tinha a idade dele), cumplicidade, fantasia, everything’s gonna be alright. Isso não tem preço.
©
Abrão Brito Lacerda
28 04 18


Comentários