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Na foto de família, Lê é o de óculos, à direita.

            Era como minha mãe o chamava, além do tio Rosentino, um apelido de família, conhecido de poucos, desses que tendem a desaparecer com a geração. Depois de desaparecidos pais, tios e primos, vai-se a memória de todo um grupo, com suas histórias e seu vocabulário. Foi o que aconteceu com o codinome Lê, um acrônimo para Lacerda, aqui nestas linhas resgatado pelo bem de uma dúzia de herdeiros e igual número de leitores.
            Sendo um nome pronunciado por apenas duas pessoas, poderia ter um número limitado de nuances e conotações. Mas esta pode ser igualmente a fonte de um mistério ainda maior, digamos um segredo muito bem guardado ainda por vir à tona.
            Lê acordava muito cedo, antes das galinhas, porcos e vacas que estavam no centro de suas preocupações, assim como os preguiçosos (segundo ele) que só queriam saber de comer e dormir além do necessário. Lê estava errado, naquela casa todos trabalhavam, do menorzinho até o mais graúdo, consoante o velho ditado “esta é a casa do bom homem, quem não trabalha, não come.”
            Depois do banho e da janta, charla obrigatória com os empregados, ordens para o cumprimento das tarefas do dia de amanhã, algum acerto (pagamento), anotações cuidadosas em uma cadernetinha azul (com os óculos postos na ponta do nariz) e cama! Se era fim de semana, tardava até as 10 e não mais, isso pelo prazer de ouvir as piadas do dia e também contar alguma. Se alguém lia um romance de cordel, cochilava antes de Lampião botar fogo no inferno ou do Pedro Malazartes aprontar mais uma.
            Acho que engoliu um megafone quando era mais jovem porque dar ordens era o seu forte. Não admitia ser contrariado, nem que o erro fosse cometido três vezes seguidas (por ter feito exatamente o que ele pedia). Mas tinha outras funções insubstituíveis como: técnico de radinho de pilha, enfermeiro e máquina de calcular.
            É fácil falar hoje, com a Internet ao alcance de um clic, mas antigamente os radios de pilha requeriam sintonias bem precisas para pegar a emissora desejada. Era preciso não só saber a frequência, tinha que conhecer o lugar da emissora no dial e ainda ter feeling para separar ruídos, chiados e crepitagens da transmissão. O resultado era um pouco melhor do que o de um enxame de abelhas, mas, na fazenda, fazia toda a diferença. Rádio 9 de Julho (desaparecida nos anos 70) Rádio Inconfidência AM, OC e frequência modulada; se tocassem Luiz Gonzaga, Tonico e Tinoco, Cascatinha & Inhana, tanto melhor.  
            O enfermeiro entrava em cena em caso de febre, ferimento ou ameaça de tétano. Injeções de benzotacil e outras ainda mais doloridas eram aplicadas nas impotentes vítimas/pacientes, com resultados que podemos considerar excepcionais: ninguém morreu sob seus cuidados, no máximo um braço emperrado por alguns dias.
            Quanto à calculadora, era algo natural, pois na época fazer contas era mais importante do que saber ler e escrever. Contagem de gado na porteira, separando as novilhas, os bezerros e os touros; um alqueire de terra valendo 30 mil cruzeiros a serem pagos com sacas de milho e capados gordos, o preço dos utensílios comprados para a fazenda de Maiquinique quinze anos antes.
             Não fosse pelo Natal, Dia de Reis, os leilões do padroeiro no Ibirajá, a festa de São João e o Forró da Dona Belarmina, passaria os 365 dias do ano trabalhando.  Inclusive aos domingos, quando se dedicava aos reparos dos apetrechos de couro, selas, laços, cangalhas e afins.  Sem esquecer a saída a cavalo no final da tarde, chapéu de sol (guarda-chuva) em punho, para visitar uma lavoura ou inspecionar uma cerca.
            Sabia fazer barrigueiras, loros, cias, e cordas trançadas; consertava cabrestos, rabichos e mais qualquer tralha que desse defeito. Queria tudo organizado e limpo e para isso exigia: selas penduradas nos ganchos pendendo do teto da casinha, coxos vazios virados para baixo, lixo varrido para fora do quintal, vasilhas do leite areadas.  
            Sentado sobre a capa de sola, parecia um beduíno. Media, cortava, furava, cozia, prendendo a ponta do objeto com o calcanhar. Usava uma faca amoladíssima com a ponta talhada em bisel para fazer cortes precisos e acabamentos impecáveis. Para fazer os furos por onde passaria a linha ursa ou categute, usava uma sovela, para fixar as fivelas, furador, martelo e rebites. As extremidades eram aparadas para afinar o acabamento e as aparas enrolavam-se na forma de espirais que acabavam pelo chão, caídas casualmente.
            Os domingo rescendiam à essência de tanino, os dias de semana eram regidos pelo despertar temprano da rádio caipira. No São João, Lê era mestre fogueteiro e comia batata doce assada nas brasa com manteiga.  Era a austeridade em pessoa, mas tinha seus pontos fracos; não bebia nem fumava, só gostava de viola dedilhada à luz do luar.

©
Abrão Brito Lacerda
26 11 17

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