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ANA CAROLINA MACEDO BARBOSA



            Literatura infantil e infanto-juvenil entre nós costuma ser sinônimo de paródia ou remake de histórias clássicas europeias, estilo Grimm, Perrault e Andersen ou de contos folclóricos nativos, com personagens da selva, sacis e botos-cor-de-rosa. No campo da narrativa, a maioria dos textos é previsível e pouco concorre para criar o tão propalado gosto pela leitura.
            De tanto se falar e não fazer, a leitura, coisa tão elementar, que se desenvolve com hábito e acesso a livros de qualidade, se converteu em verdadeiro fosso cultural a nos separar de outros povos. No Brasil, obras literárias são divulgadas quase que como artigos de luxo e o ato de fazer literatura significa quase sempre tomar parte em um esquema comercial, ficando a arte para os autores independentes e alguns pequenos nichos do mercado. Ler nestas condições é quase uma pretensão, um passatempo burguês ao qual as massas trabalhadoras não têm acesso.
            Mas o impulso que o segmento infanto-juvenil sofreu nos últimos anos revelou alguns autores promissores, como Ana Carolina Macedo Barbosa, uma jovem escritora mineira, inventiva e com ótimo talento narrador. Sua aposta é no gosto aventureiro dos mais crescidos e sua narrativa é mais densa e detalhada que a maioria dos livros do gênero, conforme se pode constatar em suas obras As Escolhas de Alex e Um Minhocuçu em Apuros.
            A história do Alex começa assim:
         “Num lugar distante, no pico da mais alta montanha, acima das nuvens, bem lá no alto, num local chamado Montanha dos Reis, nasce uma pequena ave chamada Alexandre, seu apelido era Alex, uma águia, mas não qualquer águia, uma águia real. Suas penas ainda não nasceram apenas o bico naquele corpinho pelado. Com calma ele vai abrindo seus olhinhos e vê lá do alto uma paisagem maravilhosa, em meio a um céu azul bem claro não havia nuvens, pelo menos não enquanto olhava para cima, pois a montanha era tão alta, que as nuvens só eram vistas olhando para baixo. Quando Alex olhou para baixo viu-se rodeado de nuvens, as nuvens eram tão brancas, ele tentava soprá-las, mas de nada adiantava.”
            Frases como “suas penas não nasceram apenas o bico naquele corpinho pelado” soam quase infantis e contém uma boa dose de graça. Assim como os elementos de ampliação: bem, tão, tanto, muito comuns nos contos de fadas e nas narrativas orais.

            Na sequência da história, Alex cresce, sempre cercado dos cuidados dos pais, aprende a voar, o que é vital para uma águia, torna-se independente e sai pelo mundo  à cata de aventuras; encontra outros animais, cada um com sua característica, faz amigos, enfim, experimenta o mundo por conta própria.
            Com o desenrolar da história, Alex tem direito a finais dignos de um príncipe - com efeito, nenhuma princesa ou pai de princesa o deixa escapar do altar. Os quatro finais propostos são idênticos:
1)    “Alex se apaixona por uma linda águia, e com ela forma uma família e vivem felizes para sempre.”
2)    “A princesa emocionada casou-se com ele e governaram com justiça e sabedoria todo o reino.”
3)    “Eles se casaram e reinaram sabiamente por muitos e muitos anos.”
4)    “- [...] É com orgulho que eu dou a Alex a mão de minha filha Camila. E que juntos vocês governem a Montanha dos Reis com dignidade, honestidade, força e sabedoria.”
            Esses são, sem dúvida, lugares comuns em história do gênero, mas o miolo vale a aventura e revela as qualidades da narradora.
            É muito engenhosa a forma como a jovem águia nasce no alto, em um lugar inacessível aos demais seres, e depois vai até o baixo, ao encontro das criaturas rasteiras, como as minhocas, que ela acaba descobrindo serem seus semelhantes.
            Outra engenhosidade, possivelmente a maior do seu estilo, é a apresentação de variantes à história, a cada etapa da vida de Alex. Essas constituem propriamente as escolhas, agora de parte do leitor, que é consultado sobre a sequência que desejaria para a história. Por exemplo:
  O que Alex deve fazer?
  - Se você acha que ele deve ver o que há na caverna vá para a página 29
  - se você acha que ele deve voltar para sua montanha vá para a página 28.
            Aspectos como concordância verbal e pontuação deverão merecer mais atenção em uma revisão futura, ainda que a escrita seja bastante livre, o que é uma marca da atualidade. Mas o ótimo fluxo narrativo, que nasce da forma encadeada e cumulativa de enunciar e da habilidade para construir transições entre as diferentes partes da história, além da imaginação pra lá de exuberante, hão de garantir vida longa a Ana Carolina Barbosa no campo da escrita.

            Last but not least, há que mencionar outra qualidade dessa jovem escritora, que é a de ilustrar os próprios livros com desenhos a lápis. Dessa mesma habilidade ela se vale para conferir autógrafos elaborados e simpaticíssimos - parte do engenho de sedução de alguém que acredita na conquista pela arte.



©
Abrão Brito Lacerda

08 01 17

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