quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

O SOL NO CORAÇÃO

Símbolo da Soka Gakkai



“O coração ignorante pode ser comparado à escuridão total, e o Sutra de Lótus ao sol.”
(Nitiren Daishonin)

            O título desta crônica vem de um poema escrito pelo humanista japonês Daisaku Ikeda, que assim se encerra:
  “É jovem quem tem
  Agora e sempre
  O sol no coração.”
            Este apelo à juventude e à alegria de viver, à eternidade, ao calor humano e ao brilho pessoal pareceu-me uma imagem perfeita, ao mesmo tempo uma metáfora (o sol/o coração) e uma parábola (alguém que leva no peito o sol, que ilumina, e vive para sempre).
O autor é presidente da SGI (Soka Gakkai International), uma entidade laica japonesa que tem como marco de fundação o livro Soka Kyoiku Gaku Taikei (“Teoria da Pedagogia de Criação de Valores”, traduzido em português como “Educação para uma vida criativa”, Editora Record, 1989) de autoria do educador  Tsunessaburo Makiguti (1871 – 1944). Nesse livro, o professor Makiguti defende uma educação voltada para a promoção dos valores humanos, através de uma pedagogia centrada na liberdade e na felicidade.  Para tanto, ele preconiza o abandono dos antigos métodos e a adoção de uma nova forma de ensinar, centrada no aluno.  Na sociedade japonesa de então, dominada pelo xintoísmo oficial e posteriormente concentrada no esforço de guerra contra os aliados, a função da escola era preparar cidadãos disciplinados e obedientes, verdadeiras "abelhas operárias" prontas a se sacrificarem pelo bem da nação. Nesse contexto, as ideias do professor Makiguti eram por demais subversivas e ele não tardou a ser perseguido. Em um episódio chave, ele foi encarcerado juntamente com outros líderes que tinham se recusado a adotar o talismã xintoísta. Esse episódio redundou em sua morte na prisão, aos 73 anos de idade.
Tsunessaburo Makiguti
A prisão do professor Makiguti veio do fato de a Soka Gakkai, que surgiu com uma proposta de reforma dentro da educação, ter se ampliado para a reforma de toda a sociedade, com base no budismo de Nitiren Daishonin, que defende que todo indivíduo possui a natureza iluminada do Buda e deve levantar-se só e revolucionar a própria existência, independentemente das circunstâncias externas. 

O idealismo de Makiguti teria desaparecido, não fosse a ação do seu discípulo e colaborador Jossei Toda, que também foi preso no episódio do talismã xintoísta, mas logrou sobreviver ao cárcere. Com sua libertação, no final da Segunda Guerra Mundial, Toda deu início à reconstrução da Soka Gakai, agora engajada em difundir a filosofia de superação e esperança de Nitiren Daishonin  em um país destroçado pela guerra e traumatizado com as explosões da bombas atômicas
Foi em uma de suas palestras que o jovem Daisaku Ikeda, então como de 19 anos, tomou conhecimento com uma filosofia que iria mudar definitivamente sua vida e ajudar a construir a história do século XX. O jovem Ikeda sentiu-se tão tocado pelas palavras de Toda que não apenas se converteu ao Budismo Nitiren dez dias depois, mas também se tornou seu discípulo mais próximo. Foi ele quem assumiu a presidência da Soka Gakkai após o  falecimento de Jossei Toda, em 1958.
Sob a liderança de Ikeda, a Soka Gakkai tem trabalhado incansavelmente em favor da paz, do diálogo entre os povos e da promoção da cultura e da educação. Atualmente, está presente em 192 países e atua através de mais 80 organizações, juntamente com outros organismos internacionais como a Organização das Nações Unidas. 
Como líder, Ikeda é valente como um leão e decidido como um samurai. Contudo, suas únicas armas são as palavras, que ele brande com clareza e altivez. Não teme dificuldades de qualquer natureza, não se deixa perturbar pelos ataques que surgem sempre que um grande homem se levanta e convoca outros a seu redor a fazerem o mesmo. Um líder que não se furta a enfrentar os problemas práticos do dia a dia (que são os mesmos para todas as pessoas: trabalho, família, dinheiro, felicidade, o sentido da vida, doença, morte...), ensinando seus discípulos a inserir seus dramas pessoais na perspectiva grandiosa e atemporal da Lei Mística e a atuar como atores de suas próprias vidas.
Jossei Toda
            Por Lei Mística entende-se o princípio fundamental que permeia todo o universo, do micro ao macrocosmo, do mundo material ao espiritual, tal qual revelada pelo Buda Sakyamuni. Ela é também denominada de "a verdadeira natureza de todos os fenômenos" e, naturalmente, não constitui uma lei no sentido comum do termo. Por razões óbvias, nos abstemos aqui de entrar em detalhes a respeito,  vamos apenas mencionar um episódio da iluminação do Buda, quando este estava meditando sob a árvore Bodhi. Ao ser questionado pelos "demônios" (funções da mente ligadas aos desejos e aos impulsos) sobre a razão de sua recusa em ceder ao às tentações, o Buda teria simplesmente tocado o chão debaixo de si, assinalando este que é o principal fundamento do Budismo: o mundo transcendente não se separa do mundo material, um é inerente ao outro. É, portanto, enfrentando os problemas da vida prática e não se afastando deles que se atinge o conhecimento verdadeiro ou sabedoria.
               Sakyamuni percebeu que os sofrimentos provêm das ilusões e da natureza obscura dos homens que oculta o estado de Buda (iluminação) que todos possuem. O Buda compreendeu, todavia, que as pessoas jamais poderiam apreender a real profundidade dessa "lei" se esta lhes fosse diretamente apresentada. Decidiu então valer-se de expedientes ou práticas acessíveis para guiar as pessoas e salvá-las dessas ilusões. Tal qual um excelente médico, começou a explicar a seus pacientes a lei da vida, de acordo com a seriedade da moléstia e a capacidade de compreensão de cada um.
            O Buda foi um filósofo e um mestre de inigualável sabedoria e sua mensagem, endereçada aos corações e mentes de todos os povos do mundo, está contida nos sutras (ensinamentos), compilados por seus discípulos. Seus atributos são inúmeros, mas podemos destacar: coragem e firmeza na prática religiosa, paciência ilimitada e compaixão para com todos os seres.
            Os sutras, compilações de ensinos transmitidos inicialmente de forma oral, atravessaram posteriormente o Nepal e chegaram até a China, onde foram classificados e estudados. No século V da era cristão, começaram a ser introduzidos no Japão. Então, no século XIII, um monge que veio a se chamar Nitiren Daishonin (1222 – 1282), debruçou-se longamente sobre os textos dos sutras, assim como suas interpretações feitas na China, sobretudo as do mestre Tientai Zizhi. Após concluir que o verdadeiro ensinamento do Buda encontrava-se no Sutra de Lótus, aquele que iguala todos os seres sencientes ao buda ao revelar a natureza budística inerente a cada um, Daishonin decidiu devolver às pessoas comuns a essência da sabedoria do Buda, descartando as práticas formais e dogmáticas das escolas budistas predominantes em sua época. Surgiu uma nova prática budista, que atravessou séculos de existência morna até ganhar novo impulso com a criação da Soka Gakkai no início do século XX. 
Daisaku Ikeda
            Na época de Sakyamuni, a Índia passava por uma profunda crise de valores com a decadência do Bramanismo. A mensagem do Buda visava oferecer esperança às pessoas tomadas pelo pessimismo e a desilusão. O mesmo ocorria no tempo de Nitiren Daishonin, quando o Japão encontrava-se mergulhado em guerras que ameaçavam desintegrar o país. A criação da Soka Gakkai e sua trajetória até os dias atuais traduzem os impasses da época contemporânea, com os indivíduos buscando direcionar suas vidas em meio a confusões de valores, materialismo desenfreado e ausência de exemplos realmente confiáveis. Estamos ainda envoltos em crenças infundadas, temores infantis, dogmas e formalidades, à espera da iluminação.
Nas palavras de Daishonin:
“Ainda que permaneça obscura por milhares de anos, uma caverna se ilumina assim que penetra a luz”.
Essa é a luz que brilha no poema de Daisaku Ikeda. Límpida, jovial, eterna. A luz mística do Buda, que se encontra no coração de cada um. Por mais obscura que pareça a caverna, há sempre uma fresta por onde o sol possa penetrar.

© Abrão Brito Lacerda

                                                                                                 


3 comentários:

  1. Excelente texto, para qualquer época. Em especial esta, onde o final de um período parece nos cobrar uma análise do que se fez e do que será feito.
    Obrigado por mais estas frestas de luz, Abrão!

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    1. Obrigado por suas palavras, caro amigo. Este texto foi preparado com um cuidado especial, pelas informações históricas que contem e pela profundidade do seu conteúdo, a pesar de transmitido assim de forma tão simples e direta. O Buda tem se tornado meu professor...

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    2. Já se transformou no meu também!

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