sexta-feira, 30 de agosto de 2013

E VAMOS QUE VAMOS!

Centro de Acesita, Timóteo, hoje

            Santo de casa não faz milagre, diz o ditado popular, ou “ninguém é profeta em sua própria terra”, conforme o próprio Jesus Cristo. No entanto, seu discípulo Tomé já sabia que é preciso ver e tocar, levando-nos a desconfiar até mesmo dos axiomas. Por isso, decidi contrariar a voz do povo e do filho de Deus e falar de Timóteo, a cidade onde vivo, pois acho que sua realidade reflete muito dos impasses atuais do Brasil.
           Timóteo é um município de 90 mil habitantes, progressista e com boa qualidade de vida. Tem uma grande indústria, outras menores que cresceram em torno desta e um comércio próspero, mas padece dos efeitos colaterais da marcha do desenvolvimento  que está levando a centros urbanos sem face, dominados pela lógica do automóvel  e vítimas de uma expansão imobiliária sem controle. 
           É difícil entender a razão de tanta pressa, sem uma pausa para refletir sobre a equação elementar: será possível manter a expansão atual e ainda assim garantir o funcionamento das vias  para automóveis, bicicletas, pedestres, carrinhos de ambulantes, todo de tipo de placas de sinalização e mais um monte de trambolhos?
“Por que se preocupar, Deus é brasileiro”, disse-me um amigo. Perguntei-lhe então “Por que Deus é brasileiro e não danês ou argentino, como o papa?”. “Desde a primeira expedição de Martim Afonso, sempre foi assim e o país ainda está de pé”, foi sua resposta.
Isso realmente faz sentido. A expedição de Martim Afonso de Souza, que deu início à colonização da Terra Brasilis, aportou em Pernambuco nos idos de 1531, com mudas de cana, cabeças de gado e quatrocentos colonos. Criou engenhos de açúcar e logo inventaram a cachaça; distribuiu sesmarias e nasceram os coronéis, que não tardaram a virar políticos.
            Mas não há mal que não venha para bem. Há dez anos, atravessar uma rua em Timóteo significava correr na frente dos carros, sem falar do comportamento provinciano de parar em qualquer lugar, a pretexto de bater papo, por exemplo.   Imagine a cena: você chega a um cruzamento e tem um carro parado bem no meio e o fulano está em animado bate-papo com um sicrano. Você espera e ele não se manca; buzina e nada...  
              Mas do lado da prefeitura vêm notícias preocupantes, parece que estão a roer as unhas. É sempre assim em início de mandato: o ex-prefeito derrotado dilapidou os recursos do município, deixou o caixa abaixo de zero, com fornecedores ameaçando suspender serviços essenciais e servidores trabalhando sem aquele entusiasmo típico dos funcionários públicos. Eu mesmo confesso que fiquei alegre em ver partir um administrador cujo ato mais nobre em seus últimos dias de gabinete foi mandar aparar criteriosamente a grama da entrada da cidade e caiar de branco imaculado o meio-fio. Para meu desgosto, o novo mandatário mandou fazer o mesmo logo depois de empossado.
            Recebi esta semana a notificação de um débito em meu nome junto ao erário, inscrito em dívida ativa desde 2006. Não tinha ainda sido cobrado, não sei exatamente porque, mas vai uma pista: deduzindo a taxa de expedição, os custos operacionais, o papel, a impressão e outros dispêndios, sobrarão para a prefeitura sete reais!
Eu pagarei de olhos fechados, contanto que a biblioteca pública não fique sem xerox e os postos de saúde não sejam fechados, como estão ameaçando fazer. Fecharão agora para reabrir dentro de três anos, à época da campanha para a reeleição, com faixas e foguetes.
      
Acesita, Timóteo, nos projetos dos incorporadores.
    
©
Abrão Brito Lacerda

            

2 comentários:

  1. Maravilhoso texto. Parabéns!

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    1. Obrigado, fico feliz com sua visita e comentário. Convido-o a se inscrever como Membro do blog e a voltar sempre. Recomende-o aos amigos.

      Abrão Brito Lacerda

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