terça-feira, 16 de outubro de 2012

MINHA VIDA É UMA NOVELA (2ª parte)




ÚLTIMOS CAPÍTULOS
(Os Primeiros Capítulos encontram-se na postagem do dia 06 10 12 - veja em "Conto")



        
         Logo no face para conversar com a Vânia:
         - Vânia, é verdade. Li as mensagens no celular dela ontem.
         - Não se desespere. Isto é comum hoje em dia.
         - Não fui trabalhar, perdi o emprego.
         - Isto também é comum. Você ainda tem seu marido.
         - Melhor seria uma banana. Me daria mais prazer.
         - Que tal irmos ao shopping amanhã de manhã enquanto o Chico estiver na escola? Você não vai trabalhar mesmo.
         - No shopping? Mas meu marido trabalha lá. Não quero que ele pense que estou à toa!
         - Topa ou não topa?
         - Tá bom, vamos.

         Vamos ao shopping de ônibus, pois o estacionamento está um absurdo, mais caro que uma passagem de promoção para Buenos Aires. Logo depois da porta automática, avistamos meu marido, tranquilamente de mãos dadas com outro barbado, passeando como se estivesse no Sunset Boulevard. Quando nos vêem, tentam uma manobra arriscada: entram na primeira loja que vêem (uma loja de artigos eróticos), mas de lá só sai um. Não é meu marido. Vamos atrás desvendar o mistério. Meu marido está ao balcão, mostrando a uma cliente como usar um brinquedo de silicone: “- Tem bateria, veja, dura mais de duas horas.”; “- Tem quantas velocidades? quer saber a freguesa exigente.”; “- Três – explica o machão de araque: suspiro, chicote e britadeira.”
         - Bom dia, freguesas, estão procurando algum produto? ele nos cumprimenta com ar cínico.
         - Pare de conversa fiada! O quê você está fazendo aqui?
Salto sobre o balcão de tão exaltada que estou, retiro os sapatos e os atiro em sua direção. A Vânia tenta me conter:
- Calma Lídia! Não faça escândalo aqui!
- Nojento! Vou mandar você pro inferno!

Levanto a saia, chuto e arranho todos que se encontram ao meu alcance, inclusive uma senhora de ar austero, que segura o brinquedinho de silicone de encontro ao peito, como um crucifixo:
- Dona Rosicley?!
Dez minutos depois, estamos todos na delegacia do shopping. Meu marido finge não me conhecer, eu finjo que não conheço a Dona Rosicley e a Vânia finge que não conhece a delegada.



Plim, plim!
Carminha retorna de Nova Iorque, em companhia do padrasto, o honorável Dr. Johnson. Trocam beijos no lounge vip do aeroporto, mas Jocasta espreita de óculos escuros, chapéu Dior e smartfone à mão, como o qual orienta seus comparsas:  
- M16, não perca de vista o carro dela. Usem o gás mostarda, nada de tiros.
Plim, plim!

- Uaaah! Que sono! Vou deitar mais cedo, diz a Mandinha.
- Pode desligar a TV. Seu pai e eu queremos conversar.
Meu marido parece desapontado. Eu devo parecer o mesmo.
Tento começar a conversa de algum jeito:
- Não sabia que você trabalhava em loja de artigos eróticos.
- Não trabalhava – responde ele, tentando parecer natural. Mas a Ternos & Truques fechou, aí vi a placa na porta da Eroêxtase. Não podia ficar desempregado, depois que você foi despedida.
- Quem era aquele cara de mãos dadas com você?
Meu marido se levanta e vai até a janela. Mira a rua lá embaixo longamente, depois se vira sobre os ombros:
- Lídia, eu sou gay. Há muito tempo venho querendo te dizer isto. Descobri minha verdadeira identidade.
Um vazio enorme se instala em minha cabeça. Olho para a TV que ainda está ligada:
“Últimos dias da super-liquidação Rip-off! Aproveite! Televisores de 80 polegadas por apenas...”
“Meu irmão, minha irmã. Saiba que Deus jamais te abandonou. Procure a Igreja Quadrangular mais perto de você.”
Plim, plim!


Em dois dias, vou de radical a tolerante, meu marido neste estado, minha filha com quem preciso falar diretamente. Decido fazê-lo antes da TV, para que a história da família não se confunda novamente com a história da novela. Vou a seu quarto, coisa que faço raramente:
- Falou com a Angélica? pergunto à mocinha deitada sobre a cama e com os pés na parede.
- Quem é Angélica?
- Só conheço uma Angélica, sua amiga Angélica, afirmo.
- Falo com ela todos os dias.
- Às vezes o dia todo, pelo visto.
- Mãe, tá me vigiando?
- Tem uma coisa que quero falar com você.
- Quer saber se eu gosto de meninas? Pois bem, gosto. Sou uma concorrente dos meninos.
Ergo-me ao impulso da resposta, tão franca quanto inesperada. Contemplo longamente a rua lá embaixo através da janela, como se olhasse para uma câmera de TV. Não tenho energia para brigar com minha filha, como fiz com meu marido. Pela primeira vez penso que talvez seja castigo de Deus. Eu tenho feito muita coisa errada, como ficado com meu massagista, um beduíno de pele curtida, que passaria bem por um sheik do petróleo.
Como um beduíno se torna massagista? Está no sangue deles, praticam a massagem auástica, sonífera e suástica, os três pilares da fé do deserto. Ele me olhou com olhar enviesado, parecia não comer há anos. Aquela noite no bunker, que era como ele chamava sua cobertura de luxo no Jardins, eu arrancando as cortinas de prazer, o voo de helicóptero noturno sobre São Paulo. Pensando bem, é realmente castigo de Deus. Quando voltamos ao bunker, nos aguardavam os agentes secretos, Polícia Federal, CIA, KGB. Depois, sua foto no jornal: “Chefe da Al-Qaeda preso no Brasil.”
Viro-me para Mandinha. A luz do anúncio em frente ilumina uma franja do meu corpo e projeta minha sombra através do quarto:
- Vamos assistir à novela?
- Depois de falar com a Angélica, responde Amanda.



Plim, plim!
 Carminha e Jocasta lançam-se nos braços uma da outra:
“- Perdão por ter fugido para Nova Iorque com meu padrasto, o venerável Dr. Johnson! suplica Carminha.
- Perdão por ter falhado ao tentar matá-la! justifica-se a mãe.”
Aos prantos, as duas se beijam e fazem juras de amor eterno filio-maternal.

“Breaking news: chefe da Al-Qaeda preso ano passado em São Paulo e deportado para os Estados Unidos é na verdade primo de Bin-Laden. Informações da Al-Jazera garantem haver um testamento, no qual ele contempla sua amante no Brasil, Lídia Buonome, como sua única herdeira...”
- Mãe, Lídia Buonome é você!
- Lídia Buonome sou eu?
- Você não ouviu? Quem é esse tal de Kaeda?
- É uma longa história...
Resumo a história para minha filha, omitindo a parte das cortinas e do voo de helicóptero.
- Você foi amante de um terrorista e agora vai ficar rica?
Será castigo ou bênção de Deus? Ainda tenho o endereço da Igreja Quadrangular. Quem sabe, alguma promessa a pagar, coisa que eu faria facilmente agora, com tanto dinheiro.
Plim, plim!

Decido chamar a Vânia no face:
- Vânia, estou confusa. Acho que vou procurar a Igreja Quadrangular.
- Não se desespere com a Mandinha... minha amiga tenta me confortar.
- Não é mais a Amanda. É aquela história de São Paulo, lembra-se? O falso massagista árabe que namorei.
- Isso são águas passadas.
- Que nada! Deu no jornal hoje que ele era primo do Bin-laden e, antes de morrer, deixou sua fortuna para mim, pois não tinha herdeiros.
- Não brinca! Você deve entrar na igreja de joelhos e ainda beijar os pés do santo.
- Isso é coisa de católicos. Na Quadrangular a gente coloca dinheiro nos pés do bispo.
- Vamos amanhã de manhã, quando tem pouca gente. Deve ser mais barato.


Uso meus últimos centavos para mais uma caixa de Lioran  e caio na cama como um saco de mamão. No meu sonho, Mandinha assobia uma canção de ninar (está feliz com a fortuna a lhe bater as portas?), meu marido faz tricô em um banco de shopping (“Isso me ajuda a relaxar”, diz ele, enquanto aguarda o horário da Eroêxtase). Subo, de salto alto e modelito Dior, o tapete vermelho do Peninsula, em Nova Iorque. No próximo take, Sonho com um cruzeiro por praias gregas... Aportamos em uma ilha deserta, rodeada de templos que mais parecem montanhas. Este se parece com a fachada da Igreja Quadrangular que vi na TV. Nunca imaginei que fosse tão suntuosa. Há seguranças de terno e walkie-talkie à mão de ambos os lados.         
Ouço ordens dentro da igreja:
- “Psit! Não pode usar facebook.”
- “Psit! só ajoelhe quando for mandado.”
Escolho um dos últimos assentos, Vânia está ao meu lado.
De repente, barulho de trombetas sacode as paredes. Surge do meio da penumbra uma figura coberta por luxuosos aparatos,  dos ombros até os pés, com uma imensa cruz dourada desenhada na frente:



- A alma do pecador pertence a Satanás! Arrependa-se e converta-se a Jesus Cristo, com o ósculo bendito da Igreja Quadrangular!
“Aceitamos cartão, cheque e dólar”, dizem cartazes luminosos. Imensas filas se formam diante dos caixas, exceto no caixa exclusivo para grávidas e idosos.
Os que caem ao chão, tomados por uma espécie de furor epiléptico, são cercados pelos seguranças  e logo depois vem o bispo impor-lhes as mãos, aos gritos de: “Afasta-te deste corpo Satanás!” Levanto-me para escapar, seguida da Vânia. Damos em um corredor onde se lê “Estuário das almas”. Solto um grito mais alto do que o do bispo.
- Mãe? O que foi? Você está bem?
Mandinha e meu marido seguram-me pelos ombros. Choro compulsivamente abraçada aos dois. Depois, tomo o resto do Lioran e volto a dormir.”


(© Abrão Brito Lacerda)

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