sábado, 6 de outubro de 2012

MINHA VIDA É UMA NOVELA (1ª parte)




    PRIMEIROS CAPÍTULOS


               - Não dou mais bola pra Lídia!
               Quem não haveria de me dar razão?
         Ela me apoquentou durante meses, querendo que eu “contasse sua história”, pois ela “tinha vivido coisas extraordinárias” e “não queria morrer sem revelá-las”. Obstinei em nome dos meus princípios  e também porque a Lídia tinha umas esquisitices capazes de manchar a reputação de qualquer escriba amador. “Tenho personagens demais para cuidar; eles trocam cotoveladas em minha imaginação.”
          - Mas eu sou a única personagem capaz de contar a própria história! Você vai ganhar tempo e não sofrerá constrangimento – foi o que ela me disse.
              - Constrangimento? O que você pretende contar?
            - Tudo. Como o dia em que descobri que minha filha era lésbica, meu marido gay e meu ex-massagista um terrorista da Al-Qaeda.
              - Francamente... Você acha que isso é mesmo coisa que valha a pena?

              Como pude dar ouvidos à Lídia?
  Nem as aspas poderiam me proteger após transposto o primeiro parágrafo:
             “Sete da manhã: face. Checo as mensagens antes do café da manhã, pois deixo o Chico na casa da mamãe e vou pro supermercado. O Chico dá um trabalhão, não come direito e só faz a tarefa na última hora. O face me conecta ao mundo:
           “Lindo dia. Para vocês uma mensagem do mago Paulo Coalho: “O sol brilha para todos os que buscam .” Vejam como a Mandinha está linda!” [Em anexo, foto da Amanda].

           O supermercado é como um aeroporto. Tem gente entrando e saindo o tempo todo. Uma fila de fregueses nervosos diante dos caixas, menos no caixa 1, exclusivo para grávidas e idosos.  Os velhinhos vão ao supermercado passar o tempo. Na hora de pagar, levam cinco minutos para entenderem o preço, mais cinco minutos para passarem o dinheiro e mais cinco minutos para conferirem o troco.  Eu também tenho que embrulhar as mercadorias.  Minhas costas doem. Então ponho a plaquinha de “caixa fechado” para ir ao banheiro.

             “Ta-ca-ti-ca-ta-ca!”, meu celular chamou na volta:
         - Lídia, é a Vânia. Amanda brigou na escola de novo. Você tem que passar lá hoje.
             - Mas onde ela está?
         - Está com sua mãe, não se preocupe. Mas você precisa falar com a coordenadora, D. Rosicley.
              - Você cuida do Chico para mim?
              - Combinado.


              Dona Rosicley me fala com ar grave:
            - Amanda Buonome é uma menina muito inteligente, mas fica agressiva às vezes. A senhora deve levá-la ao psicólogo.
             - Ela foi ao psicólogo o mês passado.
         - Deve fazer tratamento, para controlar melhor os.. os... (D. Rosicley ficou procurando as palavras) instintos...
             - A senhora disse instintos?
            - Ela me parece impulsiva demais. Quer usar botas ao invés de sapatos, por exemplo.
            - O que isso quer dizer?

         De noite, sentada ao lado da Mandinha, assistimos juntas à novela das oito, mas não tenho coragem de falar sobre o incidente:
           “- Você acha que é esperta, Carminha! Mas eu descobri o seu jogo! Você é a verdadeira assassina do Ruy!
            - Sua jararaca! Vou acabar com você!”
         Carminha e Jocasta se atracam no meio do cenário, trocando tapas e puxões de cabelos. Refletidos no piso encerado, podem-se ver pernas e fundos de calcinhas em frenética luta.
            Plim, plim!
          “Mulher moderna e ativa. Chegou o detergente que vai fazer você ganhar tempo sem perder as unhas: Lorelax! Lorelax foi desenvolvido com a mais moderna... “
         “Casas Tupy! Os campões do eletro! Desafiamos a concorrência! MP15 por apenas 59,90!”
         “Belatur leva você a Miami por apenas 79 reais por mês         . Assine agora e concorra à super-promoção de duas noites em Porto de Galinhas com direito a acompanhante!”
           Plim, plim!
         Os guardas do hotel conseguem separar Carminha e Jocasta, que agora tentam se acertar aos chutes, lançando no ar pernas, sapatos e meias de seda.
         - O que eles não fazem pela audiência!
         - Novela é vida real, mamãe – diz Amanda
         - Nunca vi duas mulheres trocando tapas em um hall de hotel na vida real.
         - Eu preferia que elas estivessem se beijando ou esfregando as pererecas – Amanda comenta com ar malicioso.
         - Você gosta de ver mulheres transando?
         Amanda não responde.
         “No próximo capítulo: Carminha descobre que Jocasta é sua mãe e foge com o padrasto!”
         Plim, plim!


         - Desligue a TV ! Tá na hora de deitar!
         - Vou esperar papai chegar!



         Amanda sempre insiste para ver o pai antes de se deitar, por isso se deita tão tarde. O Chico se deita com as galinhas, logo depois da tarefa. Meu marido chega por volta das 11, toma banho e come, às vezes o contrário.
         - Amanda brigou de novo na escola. Tive que ir conversar com a Dona Rosicley.
         - Quem é dona Rosicley? pergunta meu marido, como se acabasse de cair de pára-quedas.
         - A coordenadora pedagógica, não se lembra? (Odeio ter que repetir as mesmas explicações para ele.)
         - Ah? Brigou com quem?
         - Só ela pode contar. Vem cá, Amanda!
         Amanda não parece disposta a conversar. Ainda está grudada na frente da TV.
         - Com quem você brigou? - perguntamos, pai e mãe ao mesmo tempo.
         - A Basra e a Rachel ficam zoando a Angélica, dei uns sopapos nelas.
         - Quem é Angélica?
         - É minha amiga. Só porque ela é tímida as outras ficam querendo bullyar ela.
         - Buliar!? exclamou meu marido.
         - Bullyiar, pai. Nunca ouviu falar de bullying?
         - É o mesmo que bolinar?
         - Bullyar é ficar intimidando, dando sova.
         - Por que você não fala com a diretora?
         - A mãe de Basra é irmã da diretora, o pai de Rachel é deputado.
         - Vamos tirar você desta escola.



         - De jeito nenhum! exclamo. Nem que eu me mate de trabalhar. Não vou por minha filha em uma escola pública!


           Plim, plim!
         “Jornal das Onze. Urgente! Escola municipal do bairro Limoeiro é invadida por uma gangue de traficantes de crack. Professores e alunos fogem apavorados.”
          - Tá ouvindo a TV? É esta escola que você quer pra sua filha?
         Meu marido fica calado, como sempre. É incapaz de qualquer decisão. Ligo no face enquanto eles vão dormir, e lá encontro o comentário da Vânia: “Amanda tá linda. Vamos conversar no chat esta noite.”
 Clico no chat, a Vânia tá me esperando:
          - Tudo bem?
         - Vi a foto da Amanda, queria te falar. Você não acha que ela está muito... selvagem?
         - As moças de hoje se vestem assim: jeans rasgados, botas e tatuagens. Você não assiste novela?
          - O que eu quero dizer é que ela está muito... masculina.
          - Você conversou com ela, o que ela disse?
         - Que tinha dado uns tabefes em duas exibidas que estavam mexendo com sua amiga, a Ângela, parece.
          - Você acha mesmo que ela...?
          - Melhor verificar.
         Não consigo dormir direito. Apesar do comprimido de Lioran, fico revirando na cama, as palavras da Vânia revirando em minha cabeça, as botas de Amanda me dando chutes no traseiro. Eu bem que poderia...
          Aproveito que a Mandinha dorme a punhos fechados e pego seu celular. Minhas mãos tremem ao procurar o menu de “mensagens”, justamente repleto de recados da Ângela. Percorro sofregamente a lista, leio aleatoriamente alguns dos últimos: “T vjo no DasDuas. Tchau”, “Ñ vá + de saia, ñ quero ver os meninos olhando suas pernas”, “Qro xrar s/ o. mágico, cmer s/  tcheca”.



           O que isso quer dizer? Refugio-me no banheiro. Leio mais mensagens: “Basra e Rachel tão me enchendo de novo. Angélica.”; “Dxa q dou um jeito nelas. Mandinha.”; “I si te expulsar da escola? Angélica.’; “Fugimos pra praia. Topa? Mandinha.”

          Recoloco o telefone no lugar exato, para que ela não desconfie. Tomo o resto dos comprimidos de Lioran. Não vou trabalhar na manhã seguinte. Sou despedida.


  Plim, plim!
          Jocasta e Carminha conversam em uma cobertura de luxo, servidas por mordomos uniformizados e camareiras bombadas:
           “- Onde está o champagne, Doralice? Quantas vezes terei que pedir?
           - Já vai, madame!
           - Mais uma distração e te ponho no olho da rua!
           - Perdão, madame.
           - Jamais imaginei que você poderia ser minha mãe! diz Carminha.
          - Foi um relacionamento fortuito, eu estava deprimida, fazendo análise, responde Jocasta.
           - Com o Dr. Johnson
           - Não, este caso é mais antigo. Com o Dr. Smoorf, o grande e careca.
           - E não se abriu com ele?
           - Totalmente. Foi por isso que você nasceu.
           - Quer dizer que você e ele são meus pais? Uáá! Uáá!

Carminha põe-se a chorar.
          - Não chora não, querida, darei para você o apartamento de Nova Iorque.
           - Aquele do Central Park?
           - Sim. Mobiliado e com um Porsche na garagem.”

         Carminha anda pensativa até o canto do cenário. Por cima dos ombros, olha Jocasta, isto é, sua mãe.
           Close.

         Plim, plim!
         “Honda x-tronic: o melhor carro da categoria. Seus sonhos nunca foram tão reais.”
         “Quer falar de graça? Ligue 69 ou 96. Os cem primeiros concorrem a um i-pad de última geração.”
         “Extra! Novidade! Rip-off vende tudo pela metade do preço! Não se deixe enganar pela concorrência! Só Rip-off respeita de verdade seus clientes!”
         Plim, plim!


(ÚLTIMOS CAPÍTULOS, no próximo sábado 13/10/12)

(© Abrão Brito Lacerda)

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