domingo, 1 de abril de 2012

SETE PARA VIVER (Conto)

(2ª parte)

       Clube dos Pelutos, esta era a senha. No meio da cidade e também no meio do mato, porque aquele era o único mato que havia na cidade. Como porteiro do lugar, posso descrever todos os que entraram: Uma dama de negro e batom ultra-vermelho, Pablo e mais cerca de duzentos freqüentadores dos doze aos sessenta e sete anos.
       Não era um palco chinfrim, ao contrário do que o pretensioso Mr. Beam poderia dizer.  O salão tinha mesas cobertas com toalhas de plástico e papel acetinado, refletindo os enfeites multicoloridos do teto, retirados sem dúvida de algum filme da época da discothèque.
        - Som! Zig! Teste!
        - Antes de entregarmos o prêmio ao peluto do ano, teremos um espetáculo de ilusionismo com Merlim, o Grande e seu incrível coelhinho Dentuço. Depois da premiação, baile com Funk & Punk!
        - Uh! Uh! Uh! Funk and Punk já!  

       Vaias, aplausos.
       A inominável Milaine (não era outra a dama de negro e batom ultra-vermelho) estava à vontade no ofício que mais lhe agradava: flertar com gregos e troianos, destilando margueritas e bloody-mary´s.  O tímido Pablo preferiu a penumbra, onde podia trabalhar em seus sketches sem ser incomodado.


        - Com licença!
        Como podia insinuar-se assim entre as mesas?
        - Que sede! Eu tomaria outro bloody-mary´s.
        Como conseguia ser tão fria?
        - Olá, sou Pablo.
 - Milaine. Muito prazer.
        Não, Pablo, Milaine não é mulher para você! Poderia ser Amanda, a doce, ou mesmo Karine, a amarga. Mas não Milaine, a púnica, que já fez mais de um pôr luvas e avental!
        Oito.
        - Queria ser modelo. Mas andei perdendo tempo com homens inúteis.
        - Posso apresentá-la à Escola de Belas Artes. Estão precisando de modelos para as aulas de desenho e pintura.
        - Não sei se ainda sou bonita o suficiente.
        - A roupa enclausura a verdadeira beleza. Desprovida dela, você poderá expressar seu verdadeiro ser.
       Em que tipo de filosofia estava se metendo Pablo – ele que só sabia manusear lápis e pincel?
       - Posso lhe pedir mais um marguerita?
       - Um para você também.
      Brindaram ao encontro de Aquário e Escorpião, beberam juntos da mesma taça. Não demorou muito para que Milaine se fizesse retratar em pastel sob fundo preto. 


        - Ohhhhhhh!
        - Bravo! Lindo!
       A apresentação de Merlim, o Grande chegava a seu auge, com coelho e lenço vermelho, mas sem passarinho.
       - Detesto coelhos! Quase tanto quanto mágicos.
       - São animais delicados e inteligentes.
       - Os coelhos, sim. Os mágicos, nem tanto. Tive a desventura de cruzar com um, há muito tempo atrás.
       - Um mágico?
       - E um coelho.
       - Suas palavras me assustam, disse Pablo. Eu também me lembro de alguém, uma grande amiga, que costumava contar a trágica história de um coelhinho que tivera na infância. Ela também teve um triste fim.
       - Os românticos devem morrer antes do final, você não acha?
       - Eu?...

       Que deveria responder Pablo? Eu o adverti sobre Milaine e, agora que o via enfeitiçado como um amador, arrependi-me de ter contado até oito. 
       Os olhos de Milaine eram azul ultramar. Pablo mergulhou fundo.


 Ω
(Abrão Brito Lacerda)

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