sábado, 24 de março de 2012

SETE PARA VIVER (Conto)

1ª parte


         - Pega! Mata! Esfola!
         Multidão furiosa assim nunca se viu. Também pudera, aquele mágico trapaceiro levou os prêmios do bingo, boa soma em dinheiro e alguns vales-transporte. O Clube dos Pelutos estava profundamente chocado, mal acreditavam que havia alguém mais esperto do que eles. Então, pega, mata, esfola esse mágico safado!

 


         Mr. Beam entrou no primeiro beco que encontrou, à direita, e escondeu-se sob os degraus de uma escada. Conseguiu desaparecer, valendo-se de suas artes de magia, e a multidão passou sem o notar. Retirou da cartola, primeiro o coelho, depois o passarinho e, por último, a féria do dia: dava para viver por uma semana, levando uma vida frugal de mágico.
         Naquela noite, pediu risoto de lagosta com vinho rosê no Jarba’s. Convidou Milaine para jantar. Alugou um smoking e ainda a arrebatou retirando o coelhinho Tornado da cartola, o qual teve igualmente sua noite de gala, comendo frutas e parte da sobremesa.
         O resto da semana, seriam seis dias de uma vida frugal de mágico, apresentando-se furtivamente nas esquinas, praças e parques a troco de nada. Não era portanto natural que aproveitasse a chance do Clube dos Pelutos? 
         - Estás encantadora, Milaine.
         - Tu também, apesar de teu ar escorraçado.
         - Escorraçado? Quanta crueldade, Milaine.
         - Estou sendo generosa, pode crer.
         - Até quando hei de suportar tuas ofensas?
         - Até que possas custear casa e escola para dois filhos.
         - Não pode ser apenas um, Milaine?
         - Um, vá lá. Mas da casa, não abro mão. Não quero viver morando entre a pensão e a rua. Se tivesse curso superior, poderia tentar um concurso público. E esta farsa toda, o que é?




         Brigar com Milaine foi o último passo em sua decadência. Saiu do Jarba’s arrasado, tomou todas, acordou com a cara na sarjeta. E não se levantou mais.
         Dois: o coelhinho Tornado saltou para fora da cartola. 
        Foi o único sobrevivente da queda, uma vez que Piu-Piu, o passarinho, esmagou-se contra as pedras do calçamento. Ocultou-se detrás de uma árvore, depois fugiu para um terreno baldio ao ver cães se aproximarem. Os cães eram seus piores inimigos, se o encontrassem, estaria frito.
         Enquanto prevaleceu a luz do dia, permaneceu praticamente imóvel sob um monte de tábuas, perscrutando o ar com seu infalível olfato. Estava listo e sem carnes o pequenino - a vida com Mr. Beam não era fácil, nunca conhecera uma fêmea, passava a migalhas e couve murcha e guloseimas só mesmo quando o mágico se enfeitiçava por Milaine, a lúgubre.
           - Mamãe, um coelhinho!
          Não queria servir de isca para cachorros mal-educados e fedorentos. Avistou uma fresta, saltou para um quintal e pôs-se a cavar uma toca.  A relva estava úmida e ele aproveitou para restaurar-se com folhas e raízes sob o manto protetor da noite. Só espetou os olhos para fora quando ouviu uma menina gritar:
          - Mamãe, um coelhinho! Posso pegar ele?
          - Seu coelhinho Pom-Pom está na cama, respondeu a mãe.
         - Não é o Pom-Pom, é um coelhinho de verdade. Aqui no quintal!
          - Peça um coelhinho a seu pai, se quiser.
         Tornado pôs-se de pé sobre as patas traseiras e enfilou as orelhas. A menina correu em sua direção, ele fugiu em ziguezague; ela tentou agarrá-lo, ele deu uns pinotes.
         - Peguei! Vou chamar ele de Petrucco.
         - Ah! Valha-me Deus! Gritou a mãe.
        Dona Larice pediu os sais quando deu com o visitante confortavelmente instalado nos braços da filha.
         - É só um coelhinho, mamãe. O nome dele é Petrucco.
         Foi o auge de sua curta existência. Amanda, sua nova ama, deu-lhe cama forrada, milho verde e vegetais frescos. Em questão de dias, havia ganho um pêlo novo e reluzente, juntamente com uns quilinhos a mais. 



         - Vou levá-lo ao veterinário. Dr. Chan, como está o meu coelhinho?
          - Tem sujeira nas patas e bactérias nas orelhas.
         O Dr. Chan, que era ninguém mais do que o irmãozinho da Amanda, abriu a caixa de ferramentas e examinou o Tornado, isto é, o Petrucco de trás, de frente e ao avesso.
         - Vou dar uma injeção de “acalmante” para examiná-lo melhor.


          O coelhinho safou-se com um movimento rápido e buscou a proteção da toca. Se a ida ao veterinário se repetisse, temia ser esquartejado em nome da ciência.
Amanda o cobria de carícias e beijos desde que se levantava, dava-lhe banho com shampoo perfumado e só não o levava para a cama devido à estrita proibição de dona Larice.
          Até que um dia... Petrucco amanheceu nervoso e agitado, queria pular o muro como um canguru e esgueirar-se por baixo da cerca como uma lontra... Fugiu - ao encontro de uma coelhinha que seus instintos infalíveis haviam identificado na vizinhança.
           Ah, a dor indescritível da menina ao ver seu bibelô de pêlo branco como a neve estirado sobre um monte de areia, dilacerado por terríveis inimigos...
           Das lágrimas de Amanda nasceu um broto com uma pequena folha bivalve. Não era mais do que um tênue filamento verde esmaecido apontando para o céu. Amanda vinha regá-lo todos os dias com sua lembrança.
            Quando ganhou mais quatro folhas, foi transplantado para um vazo de barro. Cresceu, lançou galhos, foi plantado no jardim, entre rosas brancas e pés de hortelã e manjericão. - Ao chegar ao jardim, Amanda inicialmente tocava as rosas com gesto delicado, depois colhia uma folha de hortelã, outra de manjericão e inalava profundamente os odores picante e doce, cada um com uma narina, para não misturá-los. Finalmente, regava e revolvia a terra em redor daquela planta que ninguém sabia o que era – haviam até mesmo pesquisado -, mas que ela, uma menina de pele de pêssego e cabelos encaracolados, havia decidido cultivar.
          - Essa planta não dá flor e não vai dar fruto, dizia dona Larice.
          - Ela ainda está muito pequena, mamãe. Acho que vai ficar uma linda árvore.
           - Parece mais “baba-de-bode”.

Tom Browning


          A plantinha cresceu, Amanda cresceu. Ficou banguela, depois pernalonga, depois começou a se encher de curvas e gestos pausados. Ganhou tronco e hastes roliças. Lindas flores bivalves cobriram os galhos. Seu olhar passou de límpido e ingênuo a morno e melancólico, até ganhar a consistência definitiva de negro e penetrante.
           Um mágico, um coelho, uma flor, uma menina. Quatro. Mr. Beam, não deveria ter confiado em artes aprendidas na Internet. Com podia esquecer tudo pelo charme de Milaine? Tornado / Petrucco, viver de milho e couve pode ser melhor do que liberar os próprios instintos. Amanda, atenção à chuva, uma moça de sapato alto e cabelo alisado deve olhar onde pisa.
         Na terça, o parque, na quinta, o cinema, no domingo, o i-pad. O celular, o dia todo:
 

          - Alô! Karine? Recebeu as fotos?
          - Não fiz o download de todas. Já preparou a apresentação?
          - Procuro alguém que me ajude.
         - Não banque a esquecida agora. Clube dos Pelutos, não deixe de levar nossos “brinquedos”.
         - Que devo dizer a meus pais?
         - Invente uma das histórias que você conta tão bem. Diga que não é fácil relaxar para prova final e que, se ficar em casa, passará o dia inteiro pensando em meninos.
         - Tenho coisa melhor em que pensar...
         - Até!
        Quem era essa Karine que gostava de “brinquedos” e que cochichava segredos o dia inteiro nos ouvidos da Amanda, mesmo estando do outro lado da cidade?
         Pergunte ao Pablo. Seis. Foi ele quem enterrou o coelhinho para Amanda e lhe deu os primeiros toques de botânica. E era o feliz possuidor de um triciclo descalibrado, que carregava três, até mesmo cinco malucos por vez.
          Não pergunte ao mar. Sete.
         Às oito em ponto, como de costume, Pablo estacionou seu triciclo. Karine e Amanda saltaram em cima e eles tomaram a estrada do litoral.
          Karine era loira, com cabeleira crespa e volumosa. Capitã do time de handball. Cada músculo do seu corpo tinha design e impressão de fábrica.


         E era justamente isto que encantava Pablo, que estava apaixonado por Amanda, que gostava de Karine, que não queria Pablo, que se consolava com infinitos sketches em lápis, cera e carvão.
         Karine e Amanda se beijavam e o paciente Pablo captava os traços, aperfeiçoando o que a natureza não fizera perfeito, como os pés grandes de Karine e os seios um tanto pequenos de Amanda.
         Oculto a parte dos “brinquedos”, pois não sou de revelar segredos, nem quero torturar o Pablo. Mas não posso deixar de contar o que veio a seguir: Karine e Amanda saltaram abraçadas do paredão, desaparecendo na maré alta.  



         Ao descer o caminho até a praia, Pablo não encontrou mais do que duas conchas bivalves, semi-enterradas na areia. O mar açoitava a areia com fúria, ele teve medo. Recolheu as conchas em moderato contabile, executou mentalmente um réquiem entre soluços de adeus.


(continua)

(Abrão Brito Lacerda)

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