sábado, 10 de março de 2012

CONTRA A BUNDIZAÇÃO DA CULTURA BRASILEIRA

       Algumas vozes isoladas têm se manifestado ultimamente com relação à mediocrização do universo cultural do país, reflexo direto de um empobrecimento de toda a vida coletiva, na qual se sobressai o desaparecimento da ética, o materialismo crasso, a busca do “sucesso” rápido, medido unicamente por um critério mediático e uma decepção crescente de todas as cabeças pensantes com relação à qualidade de vida da geração presente e das futuras.


A bunda passa e a multidão sedenta pede mais



         Alguns se escandalizam com a baixaria do Big Brother, empurrado goela abaixo por uma poderosa emissora de TV e consumido, aparentemente com avidez, por uma multidão sem qualquer critério (recebi hoje a seguinte mensagem no meu celular: “Atenção: o BBB está pegando fogo. Você não pode perder toda essa pegação!”). Outros lembram tempos em que a produção musical – expressão maior da “cultura brasileira” – era rica e criativa e lamentam a estreiteza, o efeito apelativo e a repetitividade do axé e do sertanejo, para citar os dois maiores “fenômenos” do consumo musical recente.
         Ninguém, no entanto, dedicou um par de linhas a avaliar a verdadeira extensão do fenômeno. Os ícones musicais estabelecidos, todos saídos dos heróicos anos 60 e 70, estão velhos e conformados e comportam-se diante da mídia com o mesmo senso de oportunismo dos debutantes.
         Aliás, este é um comportamento tipicamente brasileiro, país da paródia e da imitação, que não propõe nada de inovador e enaltecedor das capacidades humanas e se limita a importar o que se faz e se diz lá fora, consumido rapidamente e trocado na primeira oportunidade por qualquer outro modismo. Acontece que o país está crescendo economicamente, ganhando relevância internacional e incorporando ao universo moderno milhões de cidadãos que antes viviam na penumbra. E estes ganhos materiais só tornam mais chocante o contraste com a desvalorização das produções artísticas.


O "crescimento econômico" esconde a mediocrização da vida brasileira em todos os sentidos.



         Vamos ao fato: por trás da máscara do avanço econômico, o que se esconde é uma perda de qualidade de vida em todos os sentidos e uma pressão cada vez maior sobre os cidadãos. Nossas cidades, grandes, médias e até pequenas têm se tornado confusos amontoados de prédios e carros, dominados por incorporadores sem escrúpulo, que por sua vez controlam máquinas administrativas corruptas e incompetentes. São projetos urbanos fracassados, que refletem – e este é um ponto no qual ninguém ainda tocou – o fracasso do “projeto” brasileiro de nação. Projeto entre aspas porque nunca tivemos nenhum, temos vivido na base do improviso e do “empurrar com a barriga” deste que Cabral por aqui aportou.
         O universo mental é totalmente dominado pela mídia televisiva, sobretudo a emissora mais poderosa, a Rede Globo, que parece ditar o que se deve pensar e comentar (digo deve porque não a assisto há anos) e tem provocado há décadas danos imensuráveis sobre o comportamento dos brasileiros, sem que ninguém ouse sequer levantar a voz.


Pra que publicar livros num país de analfabetos funcionais?



         Parece exagero? Até os anos sessenta e até início dos setenta a sociedade brasileira era regida por princípios patriarcais, com autoritarismo, rigidez moral e hipocrisia (fiel escudeira de todos os regimes que querem controlar a vida das pessoas).  As mudanças que ocorreram desde então, embaladas por todas os movimentos sociais e tecnologias que conhecemos, significaram ao mesmo tempo a dissolução dos velhos preceitos, mas sem colocar nada no lugar. Foi neste contexto que cresceu e se enraizou a Rede Globo, por exemplo. Começaram, só para citar um exemplo, com novelas simples, imitando as mexicanas (ingênuas e “boazinhas”), depois passaram para “temas sociais” e hoje são nada mais do que um desfile de taras e defeitos, pois não há capítulo em que alguém não mande matar ou mate alguém, coma a mulher do amigo ou roube o namorado da filha e pratique escroquerias e contrafações. Tudo isso estrelado por musculosos gajos, com QI suficiente para memorizar um texto e raparigas sexys e provocantes.
         Vamos dar um salto, porque o tema é amplo: o governo Lula acelerou a incorporação de milhões à escola, à TV e ao automóvel. Louvável sem dúvida, pois a desigualdade é a pior herança que nos deixaram nossos antepassados. Mas acelerou igualmente a ascensão de classes sociais sem pedigree e sem referências, que se somaram às hordas das classes médias ávidas por melhorar seu lustre numa sociedade que só vê o externo. Tudo que essa gente quer é ir pra Orlando, falar português (a freqüência por lá é de 80% de brasileiros) e dar aos filhos um banho de primeiro mundo nos “parques da Disney”. Nisto se resume todo o alcance mental da maioria das famílias de classe média brasileiras. – E vem este modesto blogueiro falar de cultura? – Não tenho dúvida que estou ofendendo muita gente.


É um ótimo músico, mas não tem padrinho. Vá tocar em barzinho pra ganhar gorjeta!



         Se o valor é apenas material, pode-se consumir qualquer produto de outra natureza, não faz diferença, ninguém tá nem aí. E aqui chegamos ao ponto:
         Desprovido de senso moral (a moral do respeito à dignidade humana, veja bem), de ética (pode-se marcar e descumprir, dever e não pagar, sujar a porta do vizinho com o lixo da própria casa, estacionar no cruzamento, avançar sobre o pedestre que atravessa na faixa), de exemplos edificantes (a justiça é uma farsa, os governantes são corruptos, as elites são aproveitadoras e execráveis), o Brasil deriva sem rumo e não há razão para crer que as gerações futuras terão um futuro melhor neste sentido.
         Exagero novamente? Olho em meu redor e vejo amigos com uma vida inteira dedicada aos estudos, com títulos de doutorado e tal, desempregados ou ganhando ninharias para lecionar em faculdades privadas, onde o cliente, o “aluno”, é senhor e pode chutar o traseiro do professor que terá a cobertura da diretoria. Artistas de reconhecido talento, gente que faria o orgulho de qualquer comunidade, penando para viver, pois não têm palcos dignos para se apresentarem ou como comercializarem suas obras. Escritores de valor que não conseguem publicar seus livros e, quando conseguem, não têm leitores para apreciá-los.
         E tenho que suportar o barulho que vem da rua, música ruim, degradante e alta. E tenho que ver na TV entrevistas, debates e reportagens com figuras que tangenciam os verdadeiros temas e ainda se arvoram em conselheiros e formadores de opinião. E tenho que ler nos jornais sobre a violência quotidiana de uma sociedade onde tudo vale e nada é punido. E tenho que lidar com gente imbuída da idéia de que “é preciso levar vantagem em tudo”, pois não há mais senso de respeito ao outro.


Vamos pra Disney tomar um banho de primeiro mundo!



         Que produção cultural de valor poderia se sobressair numa paisagem como esta? Tudo agora virou bunda e, neste sentido o Big Brother é a expressão da “cutura” brasileira. O Brasil tem CU-TURA! Acossados pela mediocridade reinante, cabe àqueles que pensam e sentem diferente dessa massa criar elos de solidariedade.
 Este meu post é um sopro contra o furacão. Não hesitem a se manifestar pró ou contra. Não precisamos de “celebridades” para dar palpites, pois eles são um produto e estão inteiramente sujeitos à mídia, responsável em grande parte por nossos males. Let’s speak up! Vamos nos erguer com nossas palavras e gestos. Acham que uma andorinha só não faz? – Verão.

2 comentários:

  1. Abrão, precisamos de pelo menos uma dúzia de corajosos como você, para falar por nós as verdades entaladas e expurgar os medos contidos.
    Parabéns pelo post, pela coragem e por nos fazer perceber que há ainda luz, ainda que os interruptores pareçam escondidos.
    Grande abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que às vezes temos que por nossa pele em risco e empregar a energia numa direção precisa. Pode provocar alguns estragos,mas abre uma brecha neste sistema corporativo-burocrático que nos dita todo dia suas regras. É como disse um autor americano, de cujo nome não me lembro:

      "Há uma fresta em cada coisa. É por onde a luz entra."

      Boa semana.

      Excluir

Gostaria de deixar um comentário?