quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

A APRENDIZAGEM DE LÍNGUAS ESTRANGEIRAS




Qualquer que seja o motivo para se aprender uma segunda ou terceira língua, razões profissionais ou pessoais ou ambas, adquirir tal habilidade significa ampliar substancialmente a capacidade da própria inteligência. Além disso, trata-se de uma atividade prazerosa e estimulante e até mesmo um jogo e uma brincadeira. 
Já que a necessidade de se aprender uma ou mais de uma língua estrangeira é indiscutível, a questão que se coloca é COMO APRENDER - como escolher entre os vários métodos e estratégias propostos e como desenvolver sua própria maneira de aprender. A criança e o adolescente não vão obviamente se colocar esta indagação, mas entendo que o adulto deve fazê-lo.
Para a maioria, basta iniciar um curso com um professor ou em uma escola qualquer. Mas eu particularmente entendo, e é um ponto sobre o qual insisto com meus alunos, que é fundamental desenvolver suas próprias estratégias de aprendizagem, ou seja, é preciso aprender a ser independente, o quanto antes possível. É com este propósito que desenvolvo as reflexões a seguir, todas baseadas em minha própria experiência e sem nenhum objetivo acadêmico.
Há sem dúvida várias maneiras de aprender, mas todas são sempre determinadas por alguns fatores. Assim, para iniciar, vamos dizer que a aprendizagem está relacionada a quatro fatores, que chamaremos de “os quatro Rs da aprendizagem”. Note que tais fatores se referem não apenas à aprendizagem de uma língua estrangeira, mas à aprendizagem de uma forma geral.
Não é difícil inferir. Quais seriam esses 4 Rs, leitor?
São: Recursos, Repetição, Regularidade e Relaxamento.
Você provavelmente achará esta denominação arbitrária e ela o é. Há várias outras possíveis. Poderíamos falar dos fatores ligados à letra M, por exemplo. Mas eu gosto do R.
Para se aprender, é preciso possuir os RECURSOS – que recursos são esses?
É importante ressaltar que, neste aspecto, todos, a menos que tenham problemas mais graves, possuem os recursos de primeira ordem e os mais importantes em igual proporção: os de natureza mental. Mas esses recursos, que existem em estado potencial, precisam ser desenvolvidos e usados. Precisam ser “estimulados”.
Embora isto seja óbvio, nem sempre nos atentamos a esta realidade que constitui os imensos recursos mentais que possuímos - a inteligência em potencial. Preferimos em geral dizer que “fulano é inteligente” ou que “cicrano tem facilidade”, sem nos darmos conta de que todos somos inteligentes, todos dispomos das faculdades necessárias para levar a cabo com sucesso nosso propósito de aprendizagem.
As qualidades que diferenciam as pessoas não estão, pois, relacionadas a um grau maior ou menor de inteligência ou de “facilidade”, mas sim a fatores como vontade, perseverança, disciplina, paciência (refiro-me à “paciência inteligente”, assim entendendo aquela que faz trabalhar e colher o fruto no momento certo).
Podemos também falar dos recursos de natureza material: instalações, equipamentos, livros, lápis, computador, internet, TV. Há um recurso, por exemplo, do qual quase ninguém suspeita: o rádio. Ouvir rádio, no computador, na TV por assinatura ou mesmo em um transistor, é um ótimo auxiliar na aprendizagem de uma língua. E de graça. Hoje, é possível estar em sintonia com praticamente qualquer língua e há programas transmitidos de outros países em português, os quais sempre oferecem aulas de idiomas.
O segundo “R” é o da REPETIÇÃO. Aprender é, essencialmente, REPETIR. É preciso ler, ouvir e fazer mais de uma vez para se aprender de fato. É repetindo que aprendem as crianças, por exemplo, que adoram ouvir a mesma história várias vezes. Repetir significa também treinar e aperfeiçoar. Outro exemplo que observamos também nas crianças.
Nem sempre nos atentamos à importância da repetição. Alguns sentem até vergonha, por exemplo, em pedir ao professor para repetir, sobretudo quando se trata de repetir mais de uma vez. E quando falamos da aprendizagem – nossa própria ou de outro – em geral omitimos as inúmeras repetições que fizemos antes de adquirir alguma desenvoltura em uma língua. No entanto, os professores têm consciência desta realidade, pois em seu dia-a-dia, repetem basicamente os mesmos conteúdos, apenas variando a forma.

Contudo, o número de repetições necessárias varia de acordo com o individuo, e este costuma ser um fator que determina diferenças entre o tempo de aprendizagem de cada um. Uns aprendem com uma repetição, outros precisam de várias. Os adolescentes são muito ágeis nisto, processam a informação com rapidez e já querem passar para algo novo.
Quanto mais repetições, mais tempo obviamente é gasto na aprendizagem. Neste campo cada um deve descobrir seu próprio perfil e desenvolver suas estratégias de repetição, aquelas que lhe são mais agradáveis. Uns escrevem, outros ouvem, outros lêem, uns colocam o livro ou o caderno debaixo do travesseiro e assim por diante... Há mesmo quem diz repetir sonhando – mas eu, particularmente, nunca consegui isto!
À repetição associamos o ato de RECORDAR ou TRAZER À LEMBRANÇA.
Aprender é recordar, trazer à memória os conteúdos assimilados, de modo a tê-los sempre à disposição, prontos para uso. A mente precisa ser estimulada contínua e regularmente. É fácil perceber que, ao ativarmos continuamente nossa mente, a mantemos ágil e evitamos, por exemplo, o esquecimento, uma deficiência das quais todos se queixam.
Para não esquecer, é preciso simplesmente... lembrar! Isto parece óbvio, mas exige exercício e disciplina e, naturalmente, toma tempo. Porque a mente, deixada por si mesma, gosta de divagar, de se desgarrar de motivo em motivo, sem se fixar em nada. Acrescente-se a isso a tendência generalizada de se ocupar de coisas fúteis e depois queixar-se de falta de tempo. O processo de constituição da autonomia que toda aprendizagem exige não avança sem uma escolha objetiva no que se refere ao emprego do tempo.
Não se deve, contudo, repetir a esmo, sem uma determinada REGULARIDADE. É preciso que haja um espaço de tempo mais ou menos uniforme entre as repetições. Esta regularidade facilita a conexão com o conteúdo anterior, estabelecendo-se a seqüência.
Além disso, o estímulo precisa ser renovado em intervalos regulares, de modo a que não haja interrupções. Se começamos e paramos, perdemos impulso, energia, tempo e dinheiro. Se mantemos um ritmo, ainda que lento, garantimos o progresso. Não conheço exceção a esta regra.
Enfim, é preciso lembrar a seletividade da memória, que sempre descarta os conteúdos que não estão sendo usados em favor de outros mais exigidos. Isto explica parte das dificuldades que um adulto, com hábitos já formados, tem em iniciar a aprendizagem de uma língua. Se alguém só pensa em trabalho, por exemplo, vai ser difícil acostumar-se a pensar em algo novo.
Repetição e regularidade ligam-se igualmente ao TEMPO e à DISCIPLINA.
Toda a aprendizagem acontece no tempo e cada um possui seu tempo pessoal, seu ritmo de aprender, que precisa ser descoberto. Isto pode parecer difícil inicialmente, pois vivemos num sistema que quer disciplinar a todos de modo a viverem no mesmo tempo e ritmo, seja para o trabalho, seja para o lazer.
A disciplina costuma ser um divisor de águas entre sucesso e fracasso. Não há dúvida de que todo esforço concentrado e consciente (sabendo o que queremos e porque o fazemos) produz resultado. Quem consegue mobilizar suas energias e evitar a dispersão, mantendo firme seus propósitos, colhe os frutos desse empenho.
Quanto ao RELAXAMENTO, que poderíamos chamar igualmente de LÚDICO ou PRAZER – só que nem lúdico nem prazer começam com R! -, ele implica na quebra da tensão física e mental, o que permite à mente e ao corpo recuperarem a energia desprendida. Ele permite interromper a série repetitiva e quebrar a rotina (que a Repetição e a Regularidade, por exemplo, podem criar), inserindo outras possibilidades, pois a atenção se volta para outras coisas, de preferência prazerosas.
Se perguntarmos ao nosso redor, “o que você entende por descansar?”, provavelmente a maioria dirá que se trata de interromper a atividade, não fazer nada. No entanto, eu entendo que relaxar e descansar não significam não fazer nada e sim mudar de atividade. Em geral quem não faz nada vive cansado, pois o ócio afrouxa as energias internas. Isto pode ser facilmente constatável.

COMO aprender constitui um campo de muitas opções, cada um se adapta a um método: (oral, escrito, audiovisual, interativo – internet), além de haver várias formas de estudar.
Do mesmo modo, a VELOCIDADE e o RITMO são pessoais, ainda que se trabalhe em grupo. O importante é descobrir seu próprio ritmo e procurar tirar o melhor proveito deste, buscando, não obstante, sempre ampliar e acelerar.
Quando comecei a estudar línguas, por volta dos 20 anos de idade, não tinha a menor facilidade. Adquirir uma primeira língua estrangeira para uso fluente, no caso, o francês, foi muito difícil, pois havia um abismo entre minha realidade e a desta língua. Ao passar para a segunda língua – o inglês – senti menos dificuldade, pois já tinha passado por várias adaptações (do português para o francês) e era mais flexível. Quando decidi incorporar uma terceira língua, o espanhol, já pude me beneficiar de toda a experiência adquirida antes e o fiz com muito maior eficiência e em muito menos tempo.
O quê constitui esta EXPERIÊNCIA adquirida?
             Há alguns fatores que eu entendo serem determinantes e sobre estas gostaria de falar para encerrar este texto.
       Em primeiro lugar, o procedimento metódico. Estudar com MÉTODO, e não de qualquer maneira. Ainda que estude só, devo ter dia e hora para fazê-lo e estabelecer objetivos a serem cumpridos, por aula, por mês, por semestre.
       Em segundo lugar, a busca da autonomia e da independência. Isto significa ser dono de sua própria aprendizagem, ao invés de esperar que o professor, por exemplo, o seja.
       Há ainda o princípio da ANALOGIA que rege todos os processos naturais e mentais. Ou seja, aprendemos algo em relação a algo mais e com base em modelos e exemplos.
Ao aprendermos uma primeira língua estrangeira vamos comparando-a com o português e descobrindo as semelhanças e diferenças. Ao passarmos à segunda o campo comparativo se amplia, pois já temos uma cultura mais vasta. Quanto maior a capacidade de estabelecer analogias, mais fácil e rápida a aprendizagem. Um pequeno exemplo: em espanhol, a expressão “Ao se sentir feliz”, corresponde a “Al sentirse UNO feliz”, que é semelhante ao inglês “When ONE feels happy” e ao francês “Quand ON se sent heureux”. Estas três línguas têm um elemento em comum para esta frase (uno, one, on) que não existe em português, contudo, em português e em espanhol usamos a mesma expressão de tempo (ao, al), que não é admitida no inglês e no francês.
Outro fator é a aplicação de ESTÍMULOS para mover a vontade e garantir o desenvolvimento pessoal. Este constitui um capo vasto e complexo e fica para cada um buscar as fontes dentro de si mesmo.
É comum esperarmos que o estímulo venha de fora, do professor, de um amigo ou de um livro. Mas podemos gerá-lo dentro de nós mesmos de forma totalmente independente, enquanto parte daqueles recursos mentais que mencionei inicialmente. Um pensamento estimulante se liga a outros por analogia e afinidade e logo temos um circuito completo capaz de iluminar nossa inteligência.
Em meu entendimento, os grandes gênios são providos deste estímulo incansável, que os fazem trabalhar dia e noite. Esta é a fonte de sua “facilidade”.
Enfim, algo que considero igualmente relevante: a POSTURA DE APRENDIZ. O que quero dizer com isto? – Simplesmente, gostar de aprender, manter viva a curiosidade infantil, aberta a tudo, e brincar um pouco com o que se aprende. Rir dos erros que se cometem, não dar demasiada importância à própria imperfeição, pois esta constitui algo temporário. Em pouco tempo, sem sentir, já nos brindamos com algo da perfeição que temos como ideal.


©
Abrão Brito Lacerda
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5 comentários:

  1. São reflexões não acadêmicas, baseadas em minha própria experiência.

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  2. Beautiful and stimulating article...
    Suggestion: in them next postage, a demonstration class in video.

    Continue sus compañías con la felicidad y el entusiasmo.
    Hasta el fin

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  3. Ola querido mano
    otimo seu texto
    bjs
    Maria Madalena (Mada)

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  4. Texto excelente e encorajador. Realmente muito bom. Indubitavelmente, é necessário mesmo seguir as quatro regras de procedimento (os 4Rs) para a aprendizagem de qualquer língua estrangeira.

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