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BORGEANA




            Meu colega Emerson Matutti disse certa vez:
            - Cuidado com a Heneda, ela grita na hora da transa. Pode comer qualquer mulher aqui, mas fuja da Heneda. Você corre o risco de broxar feio.
            Não lhe dei ouvidos.
            O Emerson exagerava as coisas, via tragédia em acidente de carrinhos de rolimãs e vivia cantarolando a música do Cazuza: “Será que eu sou medieval?”
            - Se for convidado ao quarto dela, não aceite – acrescentou. - Ela acende incensos, finge meditar. Depois te agarra, incontinenti.
De modo que não me surpreendi quando estava no banho e alguém bateu à porta, eu perguntei quem era e uma voz feminina respondeu do corredor:
            - É a Heneda!
Naquela moradia, refúgio de estudantes pobres de variada plumagem, uns loucos, outros aprendizes, o diálogo era perfeitamente normal:
            - Quem está no banho?
            - É o Carlos.
            - Estou com pressa. Posso tomar banho com você?
            Não hesitei em abrir-lhe a porta. Tampouco recusei a ensaboar-lhe o pescoço, as espáduas, os lisos músculos lombares, o bumbum...
Ela usou e abusou do meu xampu, esnobou meu sabonete - “Lux! Que lixo!” -, mas, ao ver que aquela brincadeira estava produzindo alterações em minha anatomia, disse que estava atrasada para uma prova de geografia.
Antes de sair, porém, fez o convite:
            - Às onze horas, no quarto 16.     
            Terminei o banho no assobio, troquei-me e rumei para a faculdade, localizada na parte alta da cidade.
Era pontual para a aula que começava às 18h30, mas não assistia necessariamente à última, que terminava às 22h30. Após uma passagem pelo Bar do Gordo, muitos se recusavam a dedicar sua preciosa matéria cinzenta a outro ofício que não fosse beber, filosofar ao vento e paquerar. Esticada obrigatória no Bar do Lulu, algumas quadras acima e, lá pelas tantas, retorno à Moradia Estudantil Borges da Costa, onde a festa continuava.

            

        Naquela noite, contudo, eu não iria ao Bar do Lulu. O quarto 16, Ala das Voluntárias, estava no centro dos meus pensamentos.
            Desci até a Praça da Savassi  e, por falta de ocupação melhor,  juntaram-se em minhas ideias a Heneda e a advertência do Emerson (“Você corre o risco de broxar feio”), que tomei, mais uma vez, por pilhéria. 
Na praça, encontrei Aloísio, um cara excêntrico que gostava de Beethoven e Jimmy Hendrix; ele me convidou para tomar licor Stregga com conhaque Bonaparte (“Tem que ser o francês!”) e fomos procurar um estabelecimento que servisse o refinado coquetel. Encontramos um bar na Rua Sergipe, sentamo-nos ao balcão e eu lhe falei do meu encontro de mais tarde:
- A Heneda é morena, tipo mignon, tem seios pequenos e pernas roliças.  
- Uau! E por que você está tão nervoso?
- Um amigo me advertiu que ela grita na hora H. Parece que mais de um carinha já broxou.
- Ha! Ha! Ha! Que homem não gostaria de fazer a mulher gemer assim?!
            - Gemer não é gritar.
            - Dá no mesmo. É como o raio e o trovão.
            - Já pensou se ela começa realmente a gritar? O que eu faço?
            - Peça pra ela morder o travesseiro - é assim nos filmes. Mais um conhaque?
            - Só mais um, então.
            Cheguei na moradia e fui direto a meu quarto. Passei por festa no porão e também no jardim, animação habitual para uma sexta-feira. Dei a volta sob os arcos, atravessei a antiga cozinha e rumei para a Ala das Voluntárias - mas não fui o primeiro. Ao virar no corredor, ouvi gritos, muitos gritos, tão fortes que atraíram outros moradores. Parecia uma ópera canibalesca, com a heroína sendo chicoteada por primatas. Não durou mais do que trinta segundos e foi seguido de um pranto igualmente intenso e liberador. 


                    Disseram depois que o Francisco broxou por seis meses e, inclusive, precisou de terapia.
Mas de onde saiu esse Francisco, se não pude agradecer-lhe por ter vivido a história por mim? Como ousou meter o nariz onde não fora chamado? Não o culpo por sua audácia, porém, eu teria feito o mesmo.
            Quanto a Heneda, ela continuou a me lançar olhares molhados. Não nego tê-la ensaboado outras vezes, mas não quis contribuir para seu prazer - e muito menos para sua dor. 
©
Abrão Brito Lacerda
25 01 15

        





Comentários

  1. Amigo Abrão, conto perfeito para ser lido numa quinta-feira à noite... Apreciei os detalhes pelos caminhos acadêmicos de BH... Saudade... Ieda, misteriosa, gata... Esperto quem não a experimentou?! Vá saber... Adorei!
    Beijos, Sal

    ResponderExcluir
  2. rerer.. bravos. boa história.
    Banho de mão dupla na moradia,
    quem diria!
    Audácia?
    quem não aprovaria?

    abração
    do João

    ResponderExcluir

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